quarta-feira, 8 de julho de 2009


"Todo o silêncio é uma música em estado de gravidez."


Mia Couto

Antes de nascer o mundo

terça-feira, 30 de junho de 2009


Desde pequeno ele começou a engolir as palavras.

De criança falava pouco e ouvia muito, adorava ouvir. Chamava os amigos pra brincar de escutar, mas não era fácil entrar nessa brincadeira não. Falar, eles preferiam. E o menino, cada vez mais se apaixonava pela diversão de só querer saber do que os outros tinham a dizer. Músicas, poesias, conversas e declarações de amor. Fofocas, reclamações de comadre e sermão de padres. Tudo que pudesse ser repertório para seu recém-inaugurado dicionário interno. Cresceu orelhas e se pudesse só delas seria seu corpo, sua principal função. Chegava a sonhar ser escutador!

De tanto ouvir, tornou-se cedo um profissional. Descobriu por si que cada palavra tinha um sabor, um cheiro, um apetite por dizer algo. Observador, concluiu que o gosto das palavras era dado por aquele que as dizia, mas só aquele que as ouvia poderia sentir de fato o seu sal.
Pôs-se evoluído das orelhas e fez do som dos verbos seu pão diário. Panhou mania de engolir as palavras que se tornaram suas preferidas, de tanto sabor que nelas via. Irresistíveis, passaram a lhe encher cabeça e bucho.

Até que passou a sofrer de indigestões. De engolir e engolir ganhou alguns calos na garganta, palavras ruins atravessadas. Feriu o estômago de verbos pontiagudos e pelo soluço passou a colocar pra fora sentenças agressivas (que engoliu sem nem perceber).
Ficou preocupado com a saúde de seu avesso e começou a tomar doses diárias de letras para a boa digestão. Não parou de ouvir, isso não seria possível, mas aprendeu a cuspir de volta palavras amargas e a não aceitar verbos venenosos. Para si, filtrava apenas o bom que as palavras tinham a dizer e o doce que tinham a contribuir. O resto ouvia sem engolir.

Decidido de seu talento de escutador, dedicou a vida a ouvir e a admirar os outros com suas palavras, ouvindo mais que falando, aprendendo mais que ensinando, sem nem que perceber que de saber ouvir já ensinava uma grande lição.

Dizem que hoje o menino vive por aí, colecionando adjetivos, cultivando no próprio quintal palavras de generosidade e se dedicando a presentear os amigos com criativas metáforas.
E escondendo seus verbos preferidos entre as rugas que o tempo lhe deu.

quinta-feira, 4 de junho de 2009


HOJE!!


É o primeiro dia de 5 anos na vida de um Ser com o qual eu tenho o incrível privilégio de conviver.

5 anos de perspicácia e sabedoria, linearmente distribuídos em pouco mais de 1 metro de gente.

Uma pessoinha que tirou (sabe lá Deus de onde) que foi o Chico Mendes que construiu a calçada de Copacabana.
E que na manhã de seu aniversário, ouve do pai ciumento que não vai poder namorar sem sua autorização e, questionada se sabia o que era "ciúme", responde:
"Sei. Todos os homens são ciumentos."


Preciso dizer mais?


Nada além de AI LOVI IU, MALU!!!


terça-feira, 2 de junho de 2009


Há que se ter coragem pra ser feliz.
Há que se ter espanto e loucura,
Há que se ter razão e imaginação.
Há que se ter remédios,
Íntimos e diários,
Doses de absolvição.
Há que se ter tempo para brotar o talento,
Há que se ter as horas para afiar,
Há que se perceber a grave diferença
Entre a rotina e a satisfação.
Há que se afastar da inércia e mover-se
Dar as mãos à intenção.

Há que se sentar e começar.

Há que se conhecer de perto o medo
Sem deixar de crer no desejo.
Há que se fazer algo por si.
Por si, primeiro.
Tudo porque se há de querer ser feliz. Sempre.
Em si, ao menos.

Sempre.

domingo, 31 de maio de 2009


É chegada a noite.
Te dou as costas em sinal do meu amor e durmo tranqüila.
Te encosto o dorso no peito nu, esperando que minha nuca te seja uma reza de bons sonhos, enfim, de descanso.
Te dou as costas e espero o respaldo, a anunciação da segurança para o meu conforto tão vulnerável ao frio, ao vento, à coberta perdida, ao sonho atravessado, à ansiedade do dia seguinte.
Espero que teu braço me agarre como o mais cremoso dos lençóis, e com força ou espanto, me prenda numa teia segura.
Aranha no ninho em dia de chuva.
E se durante a noite te ganho as costas, benzo por enlace o escudo branco desse amor.
Precioso e santo amor. Leve e profano amor.
Dormente e presente amor.
Bendito seja o seu sono.
Te velarei, sempre, o despertar.

quinta-feira, 28 de maio de 2009


Pesquisa divulgada no Boston Medical journal:
“(...)índices mostram que o estresse já foi ultrapassado na categoria de maior problema psicológico entre executivos. Segundo pesquisa realizada no primeiro trimestre do ano, a Síndrome do Pequeno Membro teria crescido vertiginosamente junto com seus sintomas: a grosseria, a gritaria, a covardia e a insegurança profissional, demonstrada desde cedo por jovens profissionais recém saídos das casas de sua avós. Segundo os cientistas, tais sintomas podem se tornar incontroláveis já que tratamentos protéticos para Pequenos Membros ainda não foram aprovados.(...)”

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ela nunca foi feliz.
Feliz, de fato, como se diz por aí que a felicidade tem de ser. Sem nada pra reclamar, espumando euforia e plenitude. Feliz assim talvez nunca tenha sido, embora lembrasse de momentos que, pra si, foram de todo felizes. Ninguém viu, mas foram felizes.
Carregou consigo durante tempo demais pesos vazios, roupas sem história, sentimentos sem razão. Sentia todos eles sim, era legítimo, fazer o quê? Mas pra que teimar em sentir o que não dará boas sementes? O que não germinará?
Não sabia. Seguia seu padrão, sustentado pelo hábito, de torcer o nariz, de não se satisfazer, de não se gostar inteira. De achar o outro sempre melhor, mais atraente, mais interessante. De não olhar pra dentro, com mais conforto, do que pra fora.
Seguiu. Sem timão, por inércia, simplesmente seguiu. Fazer o quê?, repetia. Não lhe ocorria que sempre se tem algo a fazer, ao menos por si, senão pelo próprio mundo. Fugiu da atitude, nem a viu passar. Deixou correr, escorrer. Perdeu o tempo dentro da bolsa.
E esperou o desfecho. Sem questionar por que se abandonara.
Tropeçou na própria pena, deu uma topada na insatisfação e caiu.
No esquecimento de si mesma.
Fazer o quê?