
Desde pequeno ele começou a engolir as palavras.
De criança falava pouco e ouvia muito, adorava ouvir. Chamava os amigos pra brincar de escutar, mas não era fácil entrar nessa brincadeira não. Falar, eles preferiam. E o menino, cada vez mais se apaixonava pela diversão de só querer saber do que os outros tinham a dizer. Músicas, poesias, conversas e declarações de amor. Fofocas, reclamações de comadre e sermão de padres. Tudo que pudesse ser repertório para seu recém-inaugurado dicionário interno. Cresceu orelhas e se pudesse só delas seria seu corpo, sua principal função. Chegava a sonhar ser escutador!
De tanto ouvir, tornou-se cedo um profissional. Descobriu por si que cada palavra tinha um sabor, um cheiro, um apetite por dizer algo. Observador, concluiu que o gosto das palavras era dado por aquele que as dizia, mas só aquele que as ouvia poderia sentir de fato o seu sal.
Pôs-se evoluído das orelhas e fez do som dos verbos seu pão diário. Panhou mania de engolir as palavras que se tornaram suas preferidas, de tanto sabor que nelas via. Irresistíveis, passaram a lhe encher cabeça e bucho.
Até que passou a sofrer de indigestões. De engolir e engolir ganhou alguns calos na garganta, palavras ruins atravessadas. Feriu o estômago de verbos pontiagudos e pelo soluço passou a colocar pra fora sentenças agressivas (que engoliu sem nem perceber).
Ficou preocupado com a saúde de seu avesso e começou a tomar doses diárias de letras para a boa digestão. Não parou de ouvir, isso não seria possível, mas aprendeu a cuspir de volta palavras amargas e a não aceitar verbos venenosos. Para si, filtrava apenas o bom que as palavras tinham a dizer e o doce que tinham a contribuir. O resto ouvia sem engolir.
Decidido de seu talento de escutador, dedicou a vida a ouvir e a admirar os outros com suas palavras, ouvindo mais que falando, aprendendo mais que ensinando, sem nem que perceber que de saber ouvir já ensinava uma grande lição.
Dizem que hoje o menino vive por aí, colecionando adjetivos, cultivando no próprio quintal palavras de generosidade e se dedicando a presentear os amigos com criativas metáforas.
E escondendo seus verbos preferidos entre as rugas que o tempo lhe deu.